![]() |
| © Paulo Pinto/Agência Brasil |
Da virada de 1925 com 48 corredores aos 55 mil atletas de 44 países em 2025: como a prova criada por Cásper Líbero se tornou a mais tradicional corrida de rua do Brasil e um símbolo de resistência, superação e inclusão
Na manhã desta quarta-feira, 31 de dezembro de 2025, a cidade de São Paulo será palco de um marco histórico do esporte brasileiro: a centésima edição da Corrida Internacional de São Silvestre. Com números recordes — 55 mil corredores de 44 países e, pela primeira vez, 47% de participação feminina —, a prova que nasceu em 1925 da mente visionária do jornalista Cásper Líbero completa um século como a mais tradicional corrida de rua do país e encerra mais um ano com sua marca registrada: atletas amadores e profissionais dividindo os 15 quilômetros pelas ruas da capital paulista.
Como tudo começou: a visão de Cásper Líbero
A história da São Silvestre começa em 1924, quando o jornalista, advogado e empresário Cásper Líbero, milionário que fez fortuna no setor de imprensa no início do século XX, retornou de uma viagem a Paris maravilhado com uma corrida noturna em que os competidores carregavam tochas ao longo do percurso. Entusiasta do esporte e decidido a promover algo semelhante no Brasil, resolveu criar uma corrida a ser realizada no último dia do ano.
Em 31 de dezembro de 1925 — não em 1924, como muitos acreditam —, nascia oficialmente a Corrida de São Silvestre, batizada em homenagem ao santo do dia. Dos 60 inscritos, apenas 48 compareceram à largada, que ocorreu no Parque Trianon, na Avenida Paulista, às 23h40, em plena virada do ano.
O percurso da primeira edição ainda gera debates entre historiadores: algumas fontes apontam 6.200 metros, enquanto outras mencionam 8.800 metros. O que não gera dúvidas é o nome do primeiro vencedor: Alfredo Gomes, do Clube Espéria, que completou a prova em 23 minutos e 10 segundos.
"O Alfredo Gomes era um atleta negro. Em 1924, um ano antes da estreia da São Silvestre, ele já fazia sucesso porque estava representando o Brasil nos Jogos Olímpicos de Paris. Ele foi o 1º negro a representar o país", explica o historiador Castelheiro.
Os primeiros anos: improviso e superação
Em suas primeiras versões, a São Silvestre apresentava condições que hoje pareceriam impensáveis. Os participantes não recebiam nenhum tipo de dieta especial e eram terminantemente proibidos de tomar água durante a prova. Carentes de suporte especializado, os corredores utilizavam o mesmo calçado do treino para a corrida e usavam roupas que acumulavam suor em suas fibras. O improviso e a inexperiência atuavam como via de regra.
Uma curiosidade marcante: em 1953, após sua vitória, o lendário corredor tcheco Emil Zátopek elogiou a educação e a elegância do público brasileiro, observando que os homens usavam paletó e as mulheres vestidos longos e salto alto — sem perceber que todos estavam vestidos para as comemorações do réveillon.
Da fase nacional à internacionalização
Nas primeiras edições, apenas atletas brasileiros participavam da prova. A partir de 1927, foi permitida a inscrição de estrangeiros que moravam no Brasil, o que fez com que o italiano Heitor Blasi, radicado em São Paulo, vencesse as edições de 1927 e 1929, tornando-se o único estrangeiro a ganhar a prova na chamada fase nacional da corrida, que durou até 1944.
A era verdadeiramente internacional começou em 1945, após a abertura para atletas estrangeiros. Naquele ano, o brasileiro Sebastião Alves Monteiro garantiu as duas primeiras vitórias nacionais contra competidores de outros países, triunfando em 1945 e 1946.
A São Silvestre de 2025: números recordes
A centésima edição da São Silvestre acontece na manhã desta quarta-feira (31) com números que impressionam. São 55 mil corredores inscritos, vindos de 44 países, o maior número da história da prova. O percurso de 15 quilômetros — distância estabelecida em 1991 — tem largada na Avenida Paulista, altura do número 2084, e chegada em frente ao edifício da Fundação Cásper Líbero, no número 900.
A corrida passa por pontos históricos da capital paulista, como o Estádio do Pacaembu, a Praça da República, o Theatro Municipal, o centro histórico de São Paulo, o Elevado Presidente João Goulart e a Avenida Brigadeiro Luís Antônio.
Horários de largada
A programação do dia está dividida em ondas:
7h25 — Atletas PCD (cadeirantes)
7h40 — Elite feminina
8h05 — Elite masculina
8h06 — PCD (demais categorias)
8h08 — Pelotão premium (masculino e feminino)
8h10 — Pelotão geral (masculino e feminino), dividido em ondas conforme o pace informado na inscrição
Recorde histórico: 47% de participação feminina
Um dos marcos mais celebrados da edição de 2025 é a participação feminina recorde. Pela primeira vez na história centenária da prova, as mulheres representam 47% do total de inscritos — são 25.861 corredoras. O número representa um salto significativo em relação aos 38,44% registrados em 2024.
"Essa participação era proibida para nós no passado. Hoje, nos reencontramos e mostramos que não há limites", afirmou a atleta Núbia de Oliveira, melhor brasileira colocada na São Silvestre de 2024, durante coletiva à imprensa.
A corredora Jeane dos Santos complementa: "Hoje a corrida é uma libertação. Esqueço do mundo e me sinto livre, inspirando outras mulheres a correrem".
Vale lembrar que a inclusão oficial da categoria feminina na São Silvestre ocorreu apenas em 1975, exatos 50 anos após a primeira edição. A primeira campeã brasileira foi Carmem de Oliveira, em 1995, vinte anos após a criação da categoria feminina.
Domínio africano e jejum brasileiro
A São Silvestre moderna é marcada pelo forte domínio dos corredores africanos, especialmente do Quênia. Em 2024, os quenianos Wilson Kiprono Too (44 minutos e 21 segundos) e Agnes Keino (51 minutos e 25 segundos) foram os vencedores. Ao longo da história, o Quênia soma 17 vitórias masculinas e 19 femininas.
O Brasil, por outro lado, amarga um longo jejum de vitórias na elite. No masculino, o último atleta brasileiro a conquistar o título foi Marílson Gomes dos Santos, em 2010. Marílson é o maior campeão brasileiro da era internacional e o único tricampeão nacional, com vitórias em 2003, 2005 e 2010. Na última segunda-feira (29), o atleta de Ceilândia, no Distrito Federal, entrou para o Hall da Fama da São Silvestre.
No feminino, o jejum é ainda mais longo: a última vitória brasileira aconteceu em 2006, com Lucélia Peres.
Em 2024, o Brasil teve boas colocações: Johnatas Cruz ficou em quarto lugar no masculino (45 min e 32 seg), enquanto Núbia de Oliveira conquistou o terceiro lugar no feminino (53 min e 24 seg), seguida por Tatiane Raquel da Silva em quinto (53 min e 51 seg).
Maiores campeões da história
Entre os maiores vencedores da São Silvestre, a portuguesa Rosa Mota lidera isolada: são seis vitórias consecutivas conquistadas no início dos anos 1980, fazendo dela a maior campeã da história da prova. Portugal soma sete títulos femininos no total, ficando atrás apenas do Quênia.
No masculino, o queniano Paul Tergat aparece com cinco vitórias. Entre os brasileiros, além do tricampeão Marílson dos Santos, outros cinco corredores venceram a São Silvestre mais de uma vez:
Joaquim Gonçalves da Silva — tricampeão (1942, 1943 e 1944)
José João da Silva — bicampeão (1980 e 1985)
Mário de Oliveira — bicampeão (1936 e 1937)
Nestor Gomes — bicampeão (1932 e 1933)
Sebastião Alves Monteiro — bicampeão (1945 e 1946)
Premiação
A centésima edição da São Silvestre distribuirá aproximadamente R$ 295 mil em prêmios, com os vencedores das categorias elite masculina e feminina recebendo R$ 62.600 cada.
Uma tradição que só parou uma vez
Desde sua criação em 1925, a São Silvestre se tornou a corrida mais tradicional e conhecida do país. Em 100 anos de história, a prova deixou de ser realizada apenas uma vez: em 2020, devido à pandemia da COVID-19. A resiliência da corrida reflete a paixão dos brasileiros pelo evento que se consolidou como parte inseparável das celebrações de fim de ano.
Transmissão e acesso ao público
A centésima edição da São Silvestre terá transmissão ao vivo pela TV Globo, a partir das 7h25, permitindo que milhões de brasileiros acompanhem o evento histórico. A prova encerra oficialmente o calendário esportivo brasileiro de 2025 e abre as celebrações de Ano Novo com sua energia característica.
Legado e futuro
Ao completar 100 edições e 100 anos de história, a Corrida Internacional de São Silvestre se consolida não apenas como o maior evento de corrida de rua da América Latina, mas como um símbolo de superação, inclusão e resistência. Da largada inaugural com 48 corredores aos 55 mil atletas de 2025, da proibição da participação feminina aos 47% de mulheres inscritas, a São Silvestre reflete as transformações sociais do Brasil e do mundo.
Como afirmou a atleta Núbia de Oliveira, a corrida representa hoje a quebra de limites que antes pareciam intransponíveis. E enquanto a Avenida Paulista se prepara para receber mais uma vez os milhares de corredores que encerram o ano com suor, determinação e alegria, a São Silvestre segue escrevendo sua história — uma história que é, acima de tudo, a história de superação do povo brasileiro.
Fonte: Agência Brasil

0 comentários:
Postar um comentário