A crise no Irã em 2025–2026 é, ao mesmo tempo, econômica e política. A inflação gira em torno de 40% ao ano, a moeda entrou em queda livre e os protestos de rua deixaram de ser apenas uma reação ao custo de vida para se transformar em contestação aberta ao regime. O país chega a 2026 com população empobrecida, Estado sob pressão financeira e uma liderança teocrática desafiada nas ruas como raramente se viu desde a Revolução de 1979.
Inflação, moeda e vida cotidiana
A carestia é o ponto mais visível da crise. Estimativas usadas por veículos internacionais apontam que a inflação de consumo no Irã ficou em torno de 42% em 2025, com tendência de se manter acima de 40% em 2026. Em setores como alimentos e remédios, a alta anual ultrapassa com folga essa média, comprimindo salários e aposentadorias e empurrando a população para estratégias de sobrevivência, como estocar bens básicos ou dolarizar qualquer sobra de renda.
Ao mesmo tempo, o rial (moeda iraniana) vive sucessivas mínimas no mercado paralelo. No fim de 2025, a cotação se aproximou de 1,4 a 1,5 milhão de riais por dólar, o que representa desvalorização da ordem de 40% a 45% num único ano. Cada rodada de queda da moeda encarece importados, aumenta o custo de insumos industriais e realimenta a inflação, num círculo vicioso em que a própria tentativa da população de se proteger (comprando dólares) acelera o colapso cambial.
Sanções e má gestão: a base do problema
A crise atual não nasce do nada. Desde a saída dos Estados Unidos do acordo nuclear em 2018 e a reimposição de sanções, o Irã convive com restrições severas a exportações de petróleo, ao sistema bancário e a investimentos externos. Em 2025, a reativação de sanções da ONU intensificou o estrangulamento, atingindo receitas de exportação, congelando ativos e dificultando ainda mais o acesso a crédito e tecnologia.
Estudos sobre o impacto dessas medidas mostram que cada ciclo de endurecimento retira vários pontos de crescimento potencial, ao cortar receitas, desorganizar o comércio e afastar investidores. Mas a responsabilidade não é apenas externa. Analistas independentes apontam que o regime respondeu ao isolamento com um modelo de economia política concentrado em corporações ligadas à Guarda Revolucionária e a fundações religiosas, marcado por opacidade, clientelismo e baixa produtividade. Esse arranjo favorece grupos internos que lucram com contrabando e mercados paralelos, enquanto o setor produtivo mais amplo perde fôlego.
Dos protestos econômicos à rebelião política
O estopim da onda atual de protestos foi econômico. No fim de dezembro de 2025, comerciantes de eletrônicos e lojistas em Teerã fecharam as portas em reação à disparada do dólar e à queda do rial. Em poucos dias, paralisações semelhantes se espalharam para o Grande Bazar e para cidades como Isfahan, com vitrines apagadas e ruas inteiras de comércio fechado em sinal de protesto contra a inflação e a má gestão.
À medida que a mobilização cresceu, o foco deixou de ser apenas o custo de vida. Relatos de BBC, CNN e Al Jazeera descrevem manifestações em que estudantes, trabalhadores e diversos grupos sociais passaram a gritar palavras de ordem contra o líder supremo Ali Khamenei e a própria República Islâmica. Em várias cidades, houve registro de ataques a prédios governamentais, agências bancárias estatais e escritórios ligados ao aparato de segurança, numa escalada que lembra protestos anteriores, mas com uma dimensão econômica ainda mais aguda.
A resposta do Estado combinou gás lacrimogêneo, uso de munição real em alguns locais, prisões em massa e um amplo apagão de internet para dificultar a coordenação dos manifestantes. Organizações de direitos humanos denunciam julgamentos sumários e tentativas de enquadrar manifestantes como agentes a serviço dos EUA ou de Israel, numa estratégia de deslegitimar a revolta como “conspiração estrangeira”.
Sanções, regime e população: quem paga a conta?
O debate internacional gira em torno de um dilema: sanções pressionam o regime, mas atingem diretamente a população. Pesquisas econométricas indicam que, no caso iraniano, as medidas punitivas afetam PIB, inflação e câmbio de forma estatisticamente significativa, empurrando o país para ciclos de recessão e carestia. Ao mesmo tempo, o isolamento prolongado fortalece elites internas que se adaptam ao “capitalismo de sanções”, vivendo de brechas, contrabando e monopólios ligados ao Estado.
Para o cidadão comum, o resultado é imediato: salário corroído, economia informal inflada, poder de compra em queda e acesso cada vez mais difícil a bens essenciais. Nas ruas, o discurso dominante já não separa sanções externas e má gestão interna; a percepção é de que o regime insiste em projetos nucleares e intervenções regionais que custam caro e trazem novas punições, enquanto a vida cotidiana piora.
Riscos e cenários para 2026
Analistas veem o Irã num dos pontos de maior fragilidade em décadas. A economia anda de lado, a inflação virou padrão, a moeda perdeu referência, a guerra recente com Israel desgastou ainda mais recursos, e o país enfrenta agora uma onda de protestos com abrangência nacional e teor explicitamente político. A questão central é se o regime ainda consegue controlar a situação apenas com repressão ou se será forçado a algum tipo de concessão econômica e política.
Os cenários traçados por centros de pesquisa variam entre endurecimento total, com aumento da violência estatal e fechamento ainda maior do sistema, e um caminho de “reformas mínimas”: algum alívio social, promessas de ajuste econômico e pequeno relaxamento de controles, sem mexer na estrutura de poder. Um terceiro cenário, mais incerto, é o de crise de legitimidade prolongada, em que protestos recorrentes e divisões internas corroem aos poucos a base do regime sem, porém, produzir uma mudança rápida.
Em todos eles, um ponto é comum: enquanto a combinação de sanções pesadas, desvalorização cambial e inflação crônica permanecer, a crise iraniana continuará sendo tanto uma história de geopolítica quanto de sobrevivência cotidiana de milhões de pessoas.

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